El cuarto para guardar la escoba de la bruja


Alison Smithson recebeu de Axel Bruchhäuser a tarefa fascinante de realizar um quarto para guardar a vassoura da bruxa. Para tal criou, junto das copas das árvores, uma pequena cabana assente em pilares que repousam, por sua vez, sobre uma suave encosta que desce até ao rio atravessado por uma ponte desde a casa da bruxa. O seu interior minúsculo está concebido para ver o rio, a casa atrás, olhar para baixo e ver o chão da floresta e olhar para cima e ver o dossel formado pelas folhas e pelo céu.

Embora, lamentavelmente, em muitos casos a realidade se encarregue de o desmentir, a prática da arquitetura não é compreendida, se não contribuir para a construção de um mundo melhor. Para levar a cabo este compromisso, devemos implementar, em cada novo projeto,un processo criativo que nos permita passar da intenção à realidade, podendo acontecer, nesse complexo percurso, que uma solução que surja como resposta ao necessário possa resultar numa obra transcendente.

Em larga medida, alcançar um mundo melhor não é viável sem reflexão e, para a levar a cabo, é necessário distanciar-se da realidade para a compreender, já que, se se lançar apenas um olhar próximo, acaba por prestar-se atenção apenas ao particular. No entanto, quanto mais nos afastamos, a perda de detalhe permite-nos perceber a existência de uma estrutura invisível e difusa que suporta as nossas propostas. Se continuarmos a distanciarmo-nos, temos a sensação de que este quadro também faz parte de um esqueleto, contudo, mais abstrato e intangível. Aceder a estes enclaves, mesmo que só por um momento, supõe penetrar num universo impreciso e desfocado em que o tempo e os traços específicos de cada lugar se diluem. Provavelmente, nestes espaços difusos é onde podemos reconhecer atitudes e propostas dos outros e descobrir afinidades onde o olhar próximo não o permite, mais ainda, diria que, pela sua indeterminação, são adequadas para fazer as perguntar e assumir os compromissos que deverão orientar as nossas decisões.

Libertar espaço para a reflexão não é fácil na cultura do imediato em que estamos imersos, para o conseguir pressupõe ter a oportunidade de abrir uma janela para o desconhecido, para a imensidão que, como bem nos recorda Gaston Bachelard no seu livro La poética del espacio, habita dentro de nós, “está ligada a uma espécie de expansão do ser que a vida reprime e a cautela detém, mas que recomeça quando estamos sozinhos. Logo que nos imobilizamos, estamos noutro lugar; sonhamos com um mundo imenso. A imensidão é o movimento do homem imóvel”.

Pressionados pelo excesso de ruído e informação, é vital dispôr de um refúgio protetor, requisito indispensável para a busca paciente. Se esta busca for necessária e, na minha opinião é, como deve ser o espaço ideal para a reflexão, esse reducto de liberdade máxima a partir do qual nos projetamos para o exterior? Como deve ser o refúgio que proporcione o sossego necessário para pensar num mundo mais justo e solidário e, consequentemente, transformá-lo num lugar mais habitável?

Não quero esquecer-me dos outros refúgios, os que nos exortam sempre que há fome, guerra ou desastres naturais e dos quais, muitas vezes, nos esquecemos logo que deixam de ser notícia, mas só através dos primeiros é possível dar a resposta adequada exigida pelos segundos.

Antonello da Messina idealizou um destes lugares para acolher San Jerónimo, Padre e tradutor da Bíblia para latim, Julio Verne propõem-nos o mesmo em De la terre à la lune, Alvar Aalto construiu Nemo propheta in patria com a mesma intenção e Le Corbusier passou os últimos dias da sua vida no paradigmático Cabanon. Todos eles têm em comum a sua pequenez e provavelmente esta característica fez com que Alison Smithson abrisse a sua janela, a do quarto para guardar a vassoura da bruxa, para a imensidão da floresta, Antonello da Messina para a imensidão da refinada paisagem italiana, Alvar Aalto para a imensidão dos lagos finlandeses, Le Corbusier para a imensidão do Marenostrum e Julio Verne para a imensidão mais arrebatadora de todas, a do universo infinito.


Inauguração
  • ETSA Sevilla: 22/10/2009
Itinerâncias
  • ETSA Sevilla: 22/10/2009 - 25/11/2009
  • EA U. Francisco Victoria MADRID: 01/12/2009 - 18/12/2009
 
  • EA U. Europea MADRID: 15/02/2010 - 11/03/2010
  • ETSA VALLADOLID: 15/03/2010 - 28/04/2010

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